Reunimos aqui os principais conteúdos da posse de Maria dos Remédios na Cadeira 27 da Academia Maranhense de Medicina (AMM): fotos da cerimônia e dos convidados, o discurso completo e o release oficial do evento.
São Luís, MA, 2025
Reunimos aqui os principais conteúdos da posse de Maria dos Remédios na Cadeira 27 da Academia Maranhense de Medicina (AMM): fotos da cerimônia e dos convidados, o discurso completo e o release oficial do evento.
São Luís, MA, 2025
Patrono da Cadeira 27, inaugurou a medicina social no Maranhão. Guterres formou-se em medicina no início do século XX e ficou conhecido como “médicos dos pobres” pela prática generosa e pelo atendimento gratuito a populações vulneráveis, muitas vezes arcando com os custos dos medicamentos. Atuou durante as epidemias de peste bubônica, varíola e gripe espanhola. Seu nome simboliza uma medicina voltada ao serviço, à escuta e à responsabilidade social.
Primeira ocupante da Cadeira 27 e uma das fundadoras da AMM, a médica ginecologista obstetra e professora universitária Maria do Socorro Moreira de Sousa foi uma das pioneiras em sua área no Maranhão. Atuou com destaque na assistência e na formação médica, além do pioneirismo como gestora. Deixou um legado marcado pelo compromisso com a saúde das mulheres e pela dedicação ao ensino.
Evento reuniu acadêmicos, familiares e convidados em noite de homenagens, memória e reafirmação do compromisso com a saúde pública.
Boa noite a todas e a todos.
Cumprimento as acadêmicas e acadêmicos presentes na pessoa de Dr. José Márcio Soares Leite.
Senhoras e senhores, é uma grande alegria tomar posse nesta Academia, particularmente na cadeira 27, cujo patrono é o Dr. Luiz Alfredo Netto Guterres e a acadêmica fundadora, Dra Maria do Socorro Moreira de Sousa.
Na minha adolescência tive a sorte de conhecer e me tornar amiga de netos e bisnetos do Dr. Netto Guterres, amizades que foram muito importantes na minha formação e permanecem na vida adulta.
Não posso deixar de registrar minha admiração e gratidão pelos netos de Dr. Netto Guterres, dona Maria Tereza Soares da Fonseca (11/08/1930 – 20/01/2015) e Luiz Alfredo Netto Guterres Soares (25/11/1935 – 04/07/2016). Alguns de seus descendentes, queridos amigos, estão presentes nesta sala, esta noite.
A convivência com a família de Dr. Netto Guterres foi possível graças ao fato de meus irmãos e eu estudarmos no Colégio Santa Teresa e morarmos no Centro Histórico de São Luís. Era uma época em que estudantes pobres como nós e aqueles oriundos da classe média podiam estudar no mesmo colégio e morar no centro, embora em condições habitacionais bem diferentes.
Nunca percebemos dessa família nenhum tipo de discriminação. Pelo contrário, eles sempre nos acolheram muito bem.
Neste momento em que assumo essa cadeira, confesso sentir imensa satisfação, por se tratar do reconhecimento da minha trajetória como médica infectologista e como professora universitária e pesquisadora.
Muito dessa distinção se deve ao meu papel social, especialmente durante a pandemia de Covid-19, e, creio, pelo meu compromisso em minhas atividades.
O segredo da minha dedicação, admito, é o inegável privilégio de ter sempre trabalhado no que eu gosto.
Minha posse como membro titular e segunda ocupante da cadeira nº 27 desta Academia está repleta de grande simbolismo.
Sinto imenso orgulho de suceder uma mulher, Dra. Maria do Socorro Moreira de Souza, uma das três mulheres fundadoras desta casa. A história da medicina do nosso Estado teve, e tem, a contribuição de valiosas e valorosas médicas, como a dela.
Dra. Maria do Socorro Moreira de Sousa (São Luís, 22/10/1932 – São Luís, 29/03/2025) foi médica ginecologista obstetra renomada e muito querida pelas suas pacientes.
Na sua biografia, escrita à mão aos 91 anos de idade, e publicada no site desta academia, ela registra sua posse como membro titular da cadeira 27 desta Academia no dia 25 de abril de 1988 (Sousa, 2024, pág. 5).
Aqui me chama atenção o fato de Dra. Maria do Socorro Moreira de Sousa, naquele momento aos 30 anos de carreira, ter sido uma das três médicas fundadoras desta Academia, juntamente com Dra Maria José Aragão (10/02/1910 – 23/07/1991) e Dra. Antônia Arruda Soares, e outros 27 médicos.
Ela conta que em 1953 ingressou na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, formando-se em 1958 (Sousa, 2024, pág. 25). Podemos imaginar os desafios enfrentados por uma jovem maranhense para estudar medicina no Rio de Janeiro dos anos 50.
Àquela época, não tínhamos curso de Medicina no Maranhão. A UFMA inaugura o primeiro curso do Estado somente em 1958.
Em 1960, ela ingressou na UFMA para ensinar Fisiologia, e em 1965, passou a lecionar obstetrícia. Seria docente da UFMA por 31 anos.
Alguns anos depois, em 1970, recebeu o título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia (Tego nº 444) pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) (Sousa, 2024, pág. 34).
No livro “Os passos históricos da obstetrícia e ginecologia em São Luís do Maranhão” (2025), Dra. Marília da Glória Martins, presente aqui na cerimônia, nos informa que esse foi o primeiro título de especialista em ginecologia e obstetrícia no Maranhão, auferido pela FEBRASGO (Martins, 2025, pág.329).
Mais um momento em que se destaca o pioneirismo de Dra. Maria do Socorro Moreira de Sousa.
Já a professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix, em seu livro “História da Medicina em São Luís – médicos, especialidades e instituições” (2015), relata que a Dra. Maria do Socorro foi a quarta médica ginecologista obstetra a exercer a especialidade em São Luís, a partir de 1959 (Lacroix, 2015, pág. 235).
Lacroix menciona ainda que a médica, “em 1976, após um curso de pós-graduação no Rio de Janeiro, foi pioneira na utilização do estetoscópio fetal ultrassônico com intensificador. O amplificador permitia à mãe ouvir os batimentos cardíacos do feto, novidade prazeroza” (Lacroix, 2015, pág. 235)
Em 04 de fevereiro de 1986, fez o primeiro parto na inauguração do Hospital Materno Infantil (Sousa, 2024, pág. 56). No registro fotográfico daquele momento me chama a atenção a alegria da médica, carregando o recém-nascido.
Essa alegria é muito evidente nas fotos. Parece ter sido a marca de Dra. Maria do Socorro ao longo de sua carreira.
Dra. Maria do Socorro Moreira de Sousa também se destacou como gestora.
Ainda hoje as mulheres no Brasil enfrentam muitas dificuldades para chegar aos cargos de comando. Mas aparentemente nada intimidou Dra. Maria do Socorro Moreira de Sousa e ela exerceu os cargos com dedicação e competência.
“Na direção da maternidade Marli Sarney, de 1976 a 1982, dentre várias medidas importantes, destaca-se a instalação, em 1979, do primeiro banco de leite de São Luís” (Lacroix, 2015, pág. 236).
“Deu nova organização à Maternidade Benedito Leite, de 1982 a 1985, ano em que foi nomeada primeira assistente de diretor do Hospital Materno Infantil, até 1989” (Lacroix, 2015, pág. 236).
Ao longo de sua vasta carreira como médica ginecologista obstetra, gestora e professora universitária, recebeu várias homenagens como está registrado em sua biografia (Sousa, 2024, pág. 58, 68, 89–111). A professora Lourdes Lacroix, no entanto, destaca “a comenda e Diploma da Ordem dos Timbiras no grau de Comendador oferecidos pelo governo de Estado no IV Centenário de São Luís e entregue no CRM pelos relevantes serviços prestados” (Lacroix, 2015, pág.236)
Para concluir minha fala sobre Dra. Maria do Socorro Moreira de Sousa, vou pedir licença e usar as palavras apaixonadas da Dra. Marília da Glória Martins:
“O seu labor no erguimento e formação de todos os obstetras e ginecologistas deste estado é reconhecido e, se vangloriam com o espólio encontrado, em uníssono” (Martins, 2025, pág. 330).
O patrono desta cadeira também foi, à sua maneira, pioneiro.
Dr. Luiz Alfredo Netto Guterres (Alcântara, 04/04/1880 – São Luís, 20/06/1934), o “médico dos pobres”, inaugurou a medicina social no Maranhão. A professora Lourdes Lacroix, citando o Dr. Achilles Faria Lisboa, se refere a Dr. Netto Guterres como “uma figura ímpar na história da medicina maranhense” (Lacroix, 2015, pág. 187).
Formado em Farmácia em 1901 e pela Universidade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro em 1905 (Lacroix, 2015, pág. 187), podemos imaginar o esforço despendido por um jovem maranhense no início do século passado para estudar no Rio de Janeiro.
Ele teve seu brilhantismo logo reconhecido. “Foi interno e assistente de Clínica Médica do professor Barata Ribeiro, considerado um dos maiores pediatras na época” (Lacroix, 2015, pág. 187).
“Destacou-se como médico da clínica pediátrica e clínica médico-cirúrgica da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro” (Lacroix, 2015, pág. 187).
“Em 1906, chegou a São Luís com a energia de um jovem idealista e competência, como clínico geral, pediatra, obstetra, ginecologista, dermatologista e cirurgião geral, inaugurando a medicina social no Maranhão” (Lacroix, 2015, pág. 187).
No livro “Panteão Médico Maranhense” (1993), Dr. Olavo Correia Lima, médico pediatra, antropólogo e pesquisador, relata: “Havia nele aquela aura, que costuma vestir os grandes médicos, mistura de ciência e bondade, de lógica e afetuosidade, que envolve o doente durante a consulta, a iluminar o caminho do diagnóstico e despertar o desejo de viver” (Lima, 1993, pág. 134).
Vale ressaltar que no contexto social das primeiras décadas do século XX, Dr. Netto Guterres se depara com inúmeras e variadas solicitações de ajuda.
Como descreve Dr. Olavo Correia Lima, “não se limitava, apenas, a receitar de graça e muitas vezes pagar o aviamento da receita. Dava dinheiro, assinava promissórias, que muitas vezes eram resgatadas por ele” (Lima, 1993, pág. 140–141).
No livro “Dr. Netto Guterres – O Médico dos Pobres! Um Homem Mito – sua vida e sua obra” (2002), de autoria de seu neto, Luiz Alfredo Netto Guterres Soares, há o registro de que o patrono dessa cadeira foi “médico do matadouro, 24º BC, do pronto socorro, médico da saúde do município, do estado, onde trabalhou para debelar as epidemias de varíola, peste bubônica e gripe espanhola, sem qualquer remuneração extra” (SOARES, 2002, pág. 8).
Exemplificando a vida despojada de Dr. Netto Guterres, seu neto cita um trecho do artigo “Uma dívida não prescrita: Carlos Macieira” de Josué Montello:
“Em São Luís por esse tempo, tal como ocorre hoje, não era difícil encontrar um bom médico, com o gosto e a competência do seu ofício. E eu próprio, a despeito do tempo transcorrido, não preciso de qualquer esforço para lembrar-me deles. O Dr. Netto Guterres e o Dr. Murta, ambos se destacavam por esta singularidade: o primeiro, com seu coche puxado por uma parelha e cujas rodas ressoavam nos paralelepípedos do calçamento urbano. O segundo, com seu automóvel moderno e de ar aristocrático” (Soares, 2002, pág. 26).
De acordo com Dr. Olavo Correia Lima, “a tradição maranhense guarda a lembrança de que o enterro de Netto Guterres tenha sido o maior de todos, já havidos entre nós. Foi antevisto em seu delírio: imensa massa humana, levada por motivo grandioso, como numa procissão concorridíssima, na qual todos marchavam a pé, só ele… era levado pela nave da imortalidade e da bem-aventurança!” (Lima, 1993, pág. 141).
Ainda nas palavras de Dr. Olavo Correia Lima, “Netto Guterres foi o médico preferido dos sírio-libaneses. Ajudou quanto pôde, sem a mais pequena discriminação, numa fase difícil em que muitos se equilibravam sócio-economicamente. Era para essa gente a garantia de um seguro de doença, sem que para isso fosse necessário págar um prêmio, como acontece com a nossa Previdência Social” (Lima, 1993, pág. 142–143).
“A colônia Sírio-Libanesa não esquece o seu carismático benfeitor. Anos depois, inaugurou um busto de Netto Guterres, defronte do Hospital Geral, o seu hospital querido” (Lima, 1993, pág. 143). “Falou, na ocasião, em nome dos ofertantes, o mais brilhante dos médicos descendentes de sírio-libaneses, o Prof. Salomão Fiquene” (Lima, 1993, pág. 143).
Trago neste discurso as trajetórias destas grandes figuras para honrá-las e tê-las como guia.
A partir de agora o meu desafio é contribuir com essa casa, especialmente no que se refere à democratização do conhecimento, tentando colaborar para aproximá-la mais ainda, não só das médicas, médicos e estudantes de medicina, mas também dos outros profissionais de saúde e das pessoas em geral.
Agradeço a presença de todas e de todos: acadêmicas, acadêmicos, descendentes de Dra. Maria do Socorro Moreira de Sousa e de Dr. Luiz Alfredo Netto Guterres.
Agradeço à minha família, em especial à minha mãe, Rocilda Gomes Freitas, aqui presente no alto de seus 91 anos.
Sou grata a Dr. Antônio Rafael da Silva (meu eterno mestre), a Dr. Antônio Augusto Soares da Fonseca (amigo e colega de turma de Medicina, bisneto de Dr. Netto Guterres) e a Dr. João Melo e Sousa Bentivi (meu querido conterrâneo de Pedreiras), que com entusiasmo assinaram a carta de apresentação para que eu pudesse concorrer a essa vaga.
Assim como agradeço ao presidente desta Academia, Dr. José Márcio Soares Leite, por ter me incentivado a participar dessa eleição.
Expresso minha gratidão a todas as acadêmicas e acadêmicos que durante a minha campanha atenderam às minhas ligações telefônicas e responderam às minhas mensagens, com atenção, carinho, amizade e deferência. Destaco que alguns declararam explicitamente o prazer de receberem mais uma mulher nesta casa.
Dr. Achilles Câmara Ribeiro, colega de turma de Medicina de meu pai – José Ribamar Carvalho Branco (28/01/1937 – 05/12/2013), lembrou da alegria que meu pai teria com a minha eleição.
Muito obrigada à Comissão Eleitoral que trabalhou com entusiasmo, culminando com a ida até a minha residência para me comunicar o resultado da eleição.
Sou muito grata a todas as acadêmicas e acadêmicos que votaram em mim.
Além da honra dos votos recebidos, ressalto ainda a declaração de apoio de vários acadêmicos que não puderam comparecer à votação.
Mais uma vez, muito obrigada pela acolhida.
Concluindo, agradeço ao Dr. Antônio Augusto Soares da Fonseca por ter aceitado fazer a minha recepção nesta casa.
Muito obrigada pela atenção!